11 abril, 2017

Recent lover.

R. L.
À meia luz quase não dá pra ver seu rosto, mas sei que não lhe conheço, não sei seu nome, seu endereço, seu sorriso... Não sei de nada e isso não é incomum. Só posso sentir você ali, comigo. E isso é o suficiente. Não percebi que comecei a te esperar todas as noites, louca para ver seu sorriso torto de longe. Comecei a esperar todas as noites a fim de um dia conseguir perguntar seu nome, a fim de nossos olhos se encontrarem por mais de cinco segundos, perguntar qual sua banda preferida ou se você fazia o mesmo percurso que o meu todos os dias, a fim de lhe convidar para a pequena caminhada entre aqueles prédios até nossas casas, que descobri logo depois que ficavam próximas uma da outra. Comecei a gravar mentalmente o horário que você passava por mim e, das vezes em que você não percebia que eu estava ali perto, eu amaldiçoei os céus.
Tudo na tentativa implícita, que até eu mesma desconhecia, de fazer você ficar por mais alguns minutos, para conseguir alguns momentos sozinha contigo e poder fingir que não esperava por aquilo, fingir que não esperava lhe encontrar por ali, fingir que era acaso, fingir que eu não lhe esperava passar por mim e depois me arrepender por não ter falado contigo. Timidez. Medo de estragar todas as coisas que eu inventei em minha cabeça sobre os nossos desencontros, coisas do destino. Nós sempre temos medo de acabar com todas as coisas que imaginamos em nossa cabeça, não é? Talvez por isso não abandonamos o conforto e decidimos aventurar nosso coração por aí. Medo.
Ontem eu lhe vi com uma garota e me perguntei o motivo do meu sentimento de pequenez diante daquela cena, afinal, quem era eu para me sentir magoada contigo? Eu não sabia nada sobre ti e, mesmo assim, me senti triste. Pois me vi em uma situação estranha, a situação de desejar intensamente estar no lugar daquela garota, me senti estranhamente ofendida por não estar com você, por não conversar e rir contigo. A vida tem dessas coisas, alguns diriam. Eu não queria que ela tivesse, essa é a verdade.
Então, meu recente amor, neste texto eu vou tentar dizer os poucos motivos do meu amor instantâneo, rápido e pueril por ti. Sei que não me lembrarei de ti em alguns dias, se nós não nos encontrarmos novamente, então eu quero deixar registrada a sua imagem por meio deste texto. Você é especial e sei que todos deveriam sentir isso ao olhar pra ti. Às vezes, a gente precisa se sentir especial e dá pra notar nos olhos das pessoas que elas precisam se sentir especiais. Você é especial, digo novamente. Minhas palavras não vão traduzir meus sentimentos e meus sentimentos não poderão ser traduzidos assim, mas eu tento. Poderia lhe dizer que tu és especial milhares e milhares de vezes, você não cansaria de ouvir e eu não cansaria de dizer. O teu sorriso é belo, cura todas as minhas amarguras e a minha descrença no mundo desaparece quando nossos olhos dançam à meia luz, noite pura de uma solidão que foi criada por nós dois. Somos ausência dos corpos, presença não sentida dos corações.
É por isso que me encantei por ti, você fez-me sentir importante e fez-me sentir que estava existindo pra alguém. Você me olhou, depois olhou de novo e de novo. Você notou a minha presença, a minha existência, quando eu duvidava da mesma. Então, pode ser que nunca mais nos encontremos, pode ser que nunca mais eu veja seu sorriso, nunca mais acompanharei seu percurso, mas você esteve aqui pelo menos algumas vezes. Você existiu pra mim, você viveu em mim, você me fez esperar pelo amanhã e criar expectativas que não foram supridas, mas que me fizeram sentir viva. Pouca e bela existência. Lindo e rápido sorriso. Talvez nunca mais cruzemos os nossos caminhos, repito, mas sempre me lembrarei de ti, não da sua voz, não do seu rosto, não do seu sorriso, não do teu andar, mas lembrarei dos pequenos momentos preciosos e profundos que a tua vida impôs a minha.

Obrigada, recente amor, você me fez transbordar.

Com carinho,

M.

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