A grama molhada aquece, revigora os nossos corpos. Eu sinto minha mão segurando a tua, mas não posso vê-la. A única coisa que vejo é o céu e o seu perfume me conforta. Não sinto vontade de virar e te olhar, o prazer não está nisso. Sinto que poderia mergulhar na tua essência e abrigar meu coração em algum dos teus cantos mais escuros e, ainda assim, meu coração não se sentiria sozinho, nem infeliz.
Isso é real? Suas últimas palavras foram essas e, pela primeira vez, eu não soube como responder suas perguntas. Para mim, aquilo era aflitivo, até desesperador, ver os olhos de quem tanto gosto cheios de preocupação, cheios de algo que eu não podia explicar ou acalmar. Percebi, querido, que a minha utilidade não é mais que aliviar as tuas dores, o teu sofrimento, por isso tu olhavas para mim com tanto desespero como que querendo dividir ou até mesmo livrar-se daquela dor com alguém e esse alguém era eu. Afinal, era disso que tudo se tratava, não era? Eu acalmava, dissolvia tudo o que você não conseguia, e eu senti um vazio ao olhar sua expressão, você segurava meu ombro e me balançava e aquelas palavras espinhosas saiam da tua boca.
"Isso é real? Isso é real?"
Era como se você quisesse acordar ou se soltar dos laços que eu criei para nós dois. Meu bem, eu sou aquela dos seus sonhos, sou a que te convida para dançar e suspira as respostas do mundo, quando tudo o que precisamos são as respostas dos nossos corações. Sou dos sonhos e, agora, dos pesadelos infindáveis também. E você é quem faz meus sorrisos escaparem, meus segredos passearem por seus lábios. Nós sabemos que o nó que criamos não é impossível de ser desfeito e que somos almas livres dentro dessa coisa que chamamos de sentimento e também sabemos que considerar se tudo isso é real não é a nossa maior preocupação, afinal, do que adiantaria ser real? Não pertencemos mais um ao outro e, ainda assim, vagamos pelas nossas mentes cúmplices. Talvez seja por isso que quando vi seus olhos naquele dia, naquela ventania que bagunçava meus cabelos, a única coisa que eu poderia fazer era te abraçar e sussurrar "que suis-je pour toi?", porque olhando o reflexo dos teus olhos eu vi a resposta para os meus medos, no reflexo eu vi outro alguém.
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